Metamorfose



Tudo começa com um gole. 
Umas caras sérias ou sorrisos forçados, quadrados.Um assunto sem sentido pra jogar as palavras e não deixar o silêncio tomar conta da mente, um trago  pós-gole, um gole pós-trago. Se observa as saliências, detalhes, jeitos, olhares. Tesão da novidade, do antigo feio virando novo belo;  do álcool de graça, da chapação garantida.

Terceiro copo.
Os assuntos se combinam, as risadas engraçadas são de fato uma graça! Música para o ambiente, as falas que não se esgotam, mescladas com essa sede insaciável de continuar assim! Todo mundo em casa, pernas descruzadas, tênis descalçados, postura desleixada. Geladeira aberta com a Vodka gelada, à la vonté! Serventia da casa, garçons de nós mesmos, nos servindo livremente da descontração.

Sexto copo
Os brindes são a prova da mesma frequência, concordância de grau, de sentimentos, da idéia lançada de coração aberto, positivamente, sem medo e com respeito à vibe, à vida, à juventude, compaixão aos sérios, à desgraça que passou!
O careta já é acessório indispensável, sua fumaça é resultado do goró, combustível dessa alegria, que tem os efeitos colaterais da língua pesada, visão dupla, chão mágico que se mexe e não te deixa andar reto e vira e mexe derruba aquele que não se segura na sua parede invisível. Simbora pro bar encontrar novos brindes! Guiados por anjos da guarda ou pela sorte, chegamos!

Décimo segundo copo
Quantos desconhecidos, conhecidos, melhores amigos momentâneos, gargalhadas espontaneamente exageradas, gente gente e mais gente. Um beijo quente. Um olhar caolho ardente! De volta pra casa, uma cama. Uns amassos, um ronco!

No dia seguinte...
Aonde estou? Me achei. De onde vem o barulho? Um violão, uma cantoria, vozes no alto falante da minha cabeça! Efeitos colaterais à flor da pele, agindo sem querer, as escadas eram eternas, a água é amiga sincera!  A música vem acompanhada de sorrisos aconchegantes, bem vindos, loucos à milanesa, soltos, guerreiros que bridaram o astro rei nascendo! Cantei, gritei, desafinei, me encantei. Mas o corpo pesava, cansado, querendo arrego! A cama virou meu rumo, com um certo desconforto me encaixei no espaço que aquele corpo jogado não ocupava, inesperadamente um aconchego, um abraço quente do antigo feio, novo belo, novíssimo príncipe!. De lá não saí. 
Não queria, mas tive que sentir o frio, a dúvida do dito e não dito, boa e velha incerteza do feito e não feito, insegurança. Ressaca. Ressaca moral. Essa que só se cura pela reflexão, essa é a vida, essa é mais uma esquina dessa longa e oxalá boa estrada!








Postagens mais visitadas deste blog

Grande eu

Politicagem

Estados de alma (1917) - Gilka Machado